Resenha – FarCry 3… e uma pitada de filosofia

João Gabriel Farias Lima - 15 de janeiro de 2013

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Sempre fui fã de games. Desde o tempo que os jogos eram masterpices, criadas por mestres com histórias dignas de livro. Quem jogou Chrono Trigger ou Final Fantasy sabe do que estou falando.  Mas com o advento dos gráficos realísticos os jogos caíram em um limbo estranho, onde só o espetáculo visual raso valeria a pena. Um lugar parecido com o que vem acontecendo com o cinema mainstream por exemplo. Mas da mesma forma que acontece com o cinema citado, surgem umas pérolas, e nos games a maré tem sido muito boa. Joias como FarCry 3 aparecem e te arrebatam para a história digna de filme, livro, revistinha e digna… Uma história digna para um gamerholic!

Jason Brody. Pouco se sabe sobre o passado dele, só que ele é um playboy que curtia sua vida com dinheiro, provavelmente dos pais, e tentava tapar o buraco existencial com drogas, festas e aventuras radicais. Ele e um grupo de amigos resolvem, durante um tour por diversos países exóticos, ir para uma ilha deserta onde tudo é possível. Skydiving, lanchas, mais bebida, mais festas. Porém eles descobrem da pior maneira, que a ilha não era tão deserta assim.

Entra na história Vas Montenegro, um pirata, que com seu grupo criminoso, sequestra todo o grupo de Jason para extorquir dinheiro dos Pais e ainda sim vende-los no mercado negro. A primeira missão? Com auxilio do seu irmão, ex-militar, se esgueirar acampamento pirata afora, em busca da liberdade. Você já recebe a primeira porrada do jogo. Depois de cenas de liberdade e aventuras incríveis, a realidade, nua, crua e cruel. Como você estaria se fosse você ao invés de Jason naquela situação de extrema humilhação, no limiar de perder o significado da sua vida e virar um escravo vendido no mercado negro?

Depois de estar perto de perder o controle, com o auxílio do irmão, Jason se esgueira até a saída do acampamento quando… Vas Montenegro mostra sua cara, a cara do sadismo puro, do caos, da força das próprias mãos. Vas é muito mais que um pirata, Vas é o próprio coringa dos piratas, Vas joga na cara seu controle e com ele nos mostra como a vida pode ser dura e sanguinária. Vas bota uma bala na cabeça do seu porto seguro, seu irmão, e manda você correr para a floresta te tragar vivo.

Após uma fuga alucinante pela floresta com os psicopatas de Vas atrás de Jason, Jason se joga no abismo, literalmente. Uma queda de uma ponte de madeira representa muito mais do que possa parecer. É a alegoria perfeita, Jason é impelido a matar pela primeira vez e a fugir, ele cai acidentalmente numa aventura, num abismo que ele não sabe o que acontecerá. Aqui termina uma espécie de prefácio do jogo, a oportunidade do jogador assistir aquela pobre identidade de Jason. Vítima, fraco, desesperado e encontrando o próprio instinto.

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Jason é resgatado pelo simpático, excêntrico e prestativo Dennis, membro dos Rakyat, uma tribo local que sofre com a opressão dos piratas. Dennis revela a Jason o suposto verdadeiro Eu que nasceu naquela queda no rio (um batismo, um renascimento?). Dennis revela o caminho do guerreiro. Um ensinamento antigo da sua tribo, que coroa os guerreiros com as Tataui, tatuagens tribais que mostram o poder e evolução do guerreiro. Jason é iniciado guerreiro Rakyat, e começa, depois de ter sua identidade destroçada pelo terror de Vas, a construir um novo ser.

Jason passa a conhecer seu poder. Coisa que antes era completamente dormente em si dado sua vida desregrada e na aba dos pais e de seu irmão. Jason vira um caçador, um guerreiro, um líder para os Rakyat. Começa a resgatar seus amigos preparando a fuga e adentrando cada vez mais na tribo e nos seus rituais com a líder/sacerdotisa Citra. O jogo é embalado por muita ação, muitas viagens psicodélicas (como na épica missão de queimar as plantações de maconha), iniciações tribais, mais viagens psicodélicas e muito tiro e selva. Os produtores parecem querer te colocar numa situação que você sempre se sentirá em risco. Quando não por piratas, por onças, jacarés e tubarões. Nesse ambiente, se você jogador, não tiver inteligência e determinação de um caçador é melhor jogar outro jogo, ou colocar no easy (não recomendo o hard desse jogo, fica INSANO XP). Várias boas ideias como caçar para fazer bolsas maiores de armas com a pele, missões laterais diversas, mesas de pôquer em bares de vilas, fazem o jogo ser super interessante. Mas continuemos com a história que é, na minha humilde opinião, uma alegoria de herói digna dos mitos antigos (só que jogável).

Você acha que despertar um novo modo de ser, sair da segurança de ser um playboy vítima é fácil? Na vida real muitas pessoas preferem ser vitimas para sempre, para poder sempre colocar a culpa em alguma coisa das suas escolhas, do que enfrentar o que Jason escolheu para si. Nesse ponto alto do jogo, com Jason envolvido cada vez mais nesse novo eu, firmado na identidade de guerreiro Rakyat, se coloca naquele momento trágico. O momento em que ele está tão longe no seu caminho que não sabe, ou não quer mais, voltar para casa. Seus amigos começam a não saber mais quem é aquele Jason, determinado, porém sanguinário, que está na frente deles. (Spoilers significantes a seguir.)

Jason tem seu derradeiro encontro com Vas, no ápice da sua força, se mostra o exército de si e varre a base de Vas, terminando num duelo com Vas. O jogo poderia acabar aí, mas os roteiristas, mostrando profunda maturidade, colocam sabiamente a morte de Vas como meio da tragédia. Nessa altura da trama, ao matar seu antagonista, que representava o sadismo, o caos, a força bruta e dura da vida, Jason num movimento antropofágico se vê como o próprio Vas. Sem noção dos limites, incrivelmente poderoso. Mas a que preço?

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O segundo abismo e o segundo renascimento, depois de incríveis feitos, Jason se vê naquele mesmo momento, tragado pelo seu destino. Descobre que o chefão do cartel criminoso vive na ilha do sul e se chama Hoyt Volker. Ironicamente, para ficar na ilha sem despertar perigos, Jason é levado a roubar e usar permanentemente um uniforme dos soldados de Hoyt. Mais ironicamente ainda Jason procura a confiança de Hoyt para que seu plano de matar ele e dar fim a opressão contra seus irmãos Rakyat dê certo. Na procura dessa confiança Hoyt revela que um dos irmãos dele ainda está vivo (passível de ser resgatado) e manda Jason interroga-lo, Jason acaba espancando brutalmente seu próprio irmão, terminando a cena com um murmúrio “No que estou me tornando?”. Jason começa a se ver no ponto trágico. Naquele ponto que eu disse que todos fogem. Jason pela primeira vez vê a realidade face a face, cada escolha tem um preço e você e somente você é responsável pela sua sorte e seu revés.

O final da estrada do guerreiro se põe à sua frente e com isso o jogo entra na reta final. Com a ajuda de outro infiltrado Jason planeja e executa o golpe final no cartel de Hoyt e dá fim ao próprio Hoyt. Debaixo de muito tiro e muita adrenalina resgata seu outro irmão, o último que faltava ao grupo e parte para o abrigo na ilha do norte. Chegando lá Jason estarrecido constata o que ele já sabia que estava acontecendo. O caminho que ele trilhou começou a cobra-lo.  Citra ordena aos Rakyat a captura dos seus amigos, dizendo que eles eram a âncora dele naquela velha forma débil e impediam-no de reivindicar a nova vida. Jason, no ultimo ato da tragédia deve escolher, matar com a própria mão seus amigos, num ultimo ritual do guerreiro e governar os Rakyat como líder ou salvá-los e ir embora daquela realidade que o transformou numa pessoa forte e independente?

O que acontece depois da escolha? Jogue o jogo, viva a vida de Jason, testemunhe suas diversas ressurreições. Se apaixone pelo novo ser de Jason, mais forte, mais veloz, mais independente e faça a escolha, sofra a escolha junto com Jason. Escrevo esse artigo com o coração ainda batendo depois de tanto tiro e dessa escolha derradeira.

Termino essa análise dizendo que esse jogo marcou! Para quem não tá muito afim de profundidade filosófica e quer horas de um bom shooter e de gráficos maravilhosos, jogue FarCry 3. Mas pra quem está a fim de descer no limiar das escolhas humanas e viver o caminho trágico do herói, jogue FarCry 3.

OBS: Não dissertei sobre o que acontece depois da escolha porque realmente acho que cada um deve fazê-la para entender e coroar a genialidade do roteiro do game. Porém, se a galera pedir nos comentários faço outro texto pra dissecar as facetas filosóficas dessa escolha como uma parte 2 desse artigo. Bom jogo!

FARCRY 3

Plataforma: PC – Windows | Desenvolvedora: Ubisoft Montreal | Publisher: Ubisoft | Gênero: Tiro em Primeira Pessoa | Multiplayer? Cooperativo: 2 a 4 jogadores. Competitivo: 2 a X jogadores (atualizarei assim que possível).

João Gabriel Farias Lima

Mora no Rio de Janeiro, cursa Filosofia e estuda religiões comparadas nas horas vagas. Se dedica ao pensamento em tempo integral. Apaixonado pelas artes e pelos momentos. Navegador dos devires, desbravador de marasmos. Deseja uma filosofia que emancipe o indivíduo e um pouco de cerveja também.


  • http://www.facebook.com/pedro.lima.3114 Pedro Lima

    Vou baixar essa porra agora.

    • Joao_Gabriel_Farias_Lima

      Demorou muito ainda ! Vale cada segundo. Se não te prender do começo ao fim eu corto meu braço !

  • http://www.facebook.com/davi.williams.3 Davi Williams

    Excelente descrição do jogo. Falou tudo e mais um pouco. Estou terminando de jogar e realmente é isso tudo descrito acima. Quem for gamer ou curte um otimo FPS nao pode deixar esse jogo passar.

  • Thiago

    Excellent!!!! Esse jogo está sendo uma baita surpresa boa!!

    • Joao_Gabriel_Farias_Lima

      Sem dúvida nenhuma. Conseguiu assimilar o melhor da franquia ! E superou muito minhas expectativas !

  • Rodrigo Miguel

    Preciso jogar isso! Pela tua descrição me lembrou um pouco a jornada pessoal do personagem do Martin Sheen em Apocalypse Now, jornada selva e alma adentro, culminando com a morte do coronel Kurtz, e assumindo de certo modo o lugar dele. As histórias se repetem e são reinventadas e adaptadas às novas mídias, assim como o próprio filme é uma adaptação d´O Coração das Trevas. Mas viver a experiência no jogo deve valer mesmo a pena! Bela resenha!

    • Joao_Gabriel_Farias_Lima

      Sim ! meu irmão disse que parece o personagem do leonardo di caprio naquele filme “a ilha”.

      Essa jornada do herói é muito usada como forma de várias histórias modernas. Esse modelo remete aos grandes mitos da antiguidade ! E o jogo fez isso ser flexivel o suficiente pra caber na midia de game !

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