
Antigamente, pras pessoas se divertirem com os jogos de videogame bastava que eles apresentassem um bom desafio. A tecnologia não permitia jogos muito complexos e, por isso, era suficiente para os jogadores apenas disputarem quem fazia o maior número de pontos e batia o recorde dos outros. No caso de jogos mais difíceis de plataforma, a satisfação vinha simplesmente do fato de conseguir chegar em fases que seus amigos nunca tinham alcançado. Até hoje, eu não zerei Alex Kidd in Miracle World, de Master System, por exemplo. Na época em que tinha este console, eu ficava satisfeito por ser o único do meu grupo de amigos que conseguiu chegar na última fase do game.
O tempo passou, os jogos evoluíram e as prioridades dos jogadores mudaram. A dificuldade dos games caiu vertiginosamente em prol de contar histórias cada vez mais complexas. Atualmente, é quase uma obrigação terminar qualquer jogo que você comece, muitos deles são fáceis até mesmo nas dificuldades mais altas. O problema disso é que muitos jogos são terminados rapidamente mesmo por jogadores que ficam caçando todos os troféus. E ninguém quer pagar um dinheirão por jogos que não durem muito tempo. Então, no lugar da dificuldade elevada dos anos 80/90, os programadores passaram a oferecer para os gamers a tal liberdade de escolha. Muitos vendem seus jogos dizendo até mesmo que o final deles depende das decisões do jogador. Resenhas em sites e revistas sempre apontam isso como característica extremamente positiva. Mas será que esta liberdade existe de verdade?

Quando se fala em liberdade, logo vem à mente a série Grand Theft Auto, nosso tão querido GTA. O grande atrativo da série sempre foi a liberdade de ação, poder andar livremente pela cidade roubando carros, atirando e causando acidentes, mas ele não tem uma liberdade de escolha de verdade. Por mais que se possa escolher a rota que quiser para chegar em determinados locais e cumprir as missões, você não influencia de verdade na história. O jogador pode rodar à vontade pelas grandes cidades de GTA, mas se quiser chegar ao final do jogo, cedo ou tarde terá que seguir um caminho pré-estabelecido.
Pior ainda é o caso da série Mass Effect, que prometia uma jogatina épica ao longo de três grandes jogos. Com a possibilidade de levar o save de um jogo para o outro, era empolgante a sensação de que nossas decisões realmente faziam diferença. Personagens que morriam em um dos jogos não apareciam no outro. Mas infelizmente, o final do terceiro e último game não levou em consideração nenhuma das decisões tomadas ao longo da saga. Nem mesmo acontecimentos importantes, como acabar com a guerra entre dois povos, foi levado em conta. Durante toda a aventura do Comandante Shepard fomos levados a crer que cada decisão nossa tinha que ser muito bem pensada, pois isso poderia significar a diferença entre a vitória e derrota na batalha final. Mas nem de longe é isso que acontece.
Já em Deus Ex: Human Revolution, a liberdade que foi tão citada na época do lançamento se resume a decidir se vai cumprir as missões furtivamente ou atirando em todo mundo. Apesar de ter vários momentos repletos de diálogos onde o jogador escolhe as respostas, elas raramente influenciam no resultado final. Algumas missões eu tentava resolver de forma diferente do que o jogo me oferecia e a missão simplesmente falhava. Personagens que teriam que aparecer mais à frente eram simplesmente impossíveis de se matar, mesmo gastando um pente inteiro de munição na fuça deles. O jogo apresenta quatro finais diferentes, mas a decisão fica por conta de responder uma única pergunta no final de tudo. É possível simplesmente guardar um save naquele momento e voltar para assistir os outros finais.

Claro que ainda existe esperança para a tão almejada liberdade de escolha. Um dos jogos com mais liberdade que tive o prazer de jogar foi Fallout 3. Nele é realmente possível sentir o peso de cada decisão tomada, o jogador pode decidir entre a destruição de cidades inteiras, ou a aniquilação de todo um povo. Alguns personagens secundários passam por mudanças físicas e psicológicas dependendo das suas escolhas. É um mundo fascinante que vai se moldando de acordo com a sua vontade até o final do jogo. Ele até conta com mais de um final, mas apesar disso, o final é decidido apenas nas escolhas finais, levando em conta pouca coisa do que foi feito até ali. Pelo menos você toma essa decisão com base em tudo que viu durante o jogo inteiro, se colocando realmente na pele do personagem.
Claro que eu não poderia deixar de citar o fantástico The Walking Dead: The Game, no qual é sentido o peso de cada decisão tomada. É preciso jogar várias vezes para ver todas as possibilidades que o jogo oferece. Porém, como em outros games, os momentos finais apresentam situações que não mudam independentemente das escolhas feitas pelo jogador. Mesmo assim, The Walking Dead é um exemplo a ser seguido pelos outros jogos. Com a nova geração de videogames prestes a chegar, acho que os gráficos não têm muito mais pra onde evoluir, então talvez seja a hora das produtoras começarem a pensar em oferecer uma verdadeira liberdade de escolha aos jogadores. Não adianta encher os jogos com várias decisões se elas não vão influenciar no final, porque por mais que o jogo seja divertido, vai ser impossível não sentir uma certa frustração ao perceber que suas escolhas não valeram de nada.
Felipe Storino
Jornalista. Rubro-Negro. Viciado em séries de TV, games e gibis. Esperando ansiosamente pelo fim do mundo com uma épica invasão zumbi (ou de aliens). A verdade é que só tô aqui pela zuera.
img>




